Biscateiro é alguém que presta serviço, normalmente para fazer pequenos trabalhos que as empresas de maior dimensão entendem como perda de tempo e desperdício de meios.
Na Murtosa proliferam às centenas, pois o tecido industrial é francamente diminuto.
Grande parte destes biscateiros da construção civil faz de tudo um pouco. Consegue-se contratar mão-de-obra que faz desde o levantamento de uma parede à instalação de água, luz, esgotos, gás e com um pouco de esperteza ainda conserta o motor de rega; no fim ainda tapa fendas e rachadelas, rematando com pinturas em interiores e exteriores.
Há pessoas que subsistem deste modo e conseguem trazer para casa um rendimento razoável que lhes permite ter uma vida humilde mas desafogada dando alimento e educação aos filhos, alertando-os para que um dia sejam perfeitos no trabalho e honrados nos seus compromissos. Vivem o seu dia-a-dia tentando proporcionar à sua prole formação, muitas vezes com enormes sacrifícios pessoais, sempre com o objectivo de os catapultar para uma vida melhor. Mas já há poucos assim.
A nova geração de biscateiros caracteriza-se como uma classe operária em estilo neo-burguês que quer ganhar dinheiro sem saber fazer pouco mais que nada.
O biscateiro de agora pouco se importa com o brio profissional ou com a satisfação do cliente. Quando é contactado para ver se é possível fazer um serviço, responde logo com evasivas tipo: bem, isso faz-se. Depois o diálogo desenvolve-se mais ou menos assim: Andando de um lado para o outro com o cigarro na mão, vai coçando a nuca, o pescoço ou o queixo, a olhar por baixo com o cenho franzido, pensando como é que há-de desenrascar-se: _ Trago aí mais um ou dois camaradas e isso faz-se bem. O dono da obra: _ Então e quanto é que isto vai custar? _ Oh, isso é coisa pouca, são para aí 2 ou 3 dias de trabalho… _ Sim, mas uma estimativa só para ver com o que hei-de contar, homem? - pede o dono da obra. _ Eh, bem …isso…(sons vários e imperceptíveis) …bfffff, aponte p’aí p’a uns “tantos €. Tudo? (pergunta o outro) _ Não… p’a mãod’obra... _ Então e o material? _ bem isso não sei bem, depende…
O verdadeiro artista do biscate, nunca trás a ferramenta toda. Prefere deslocar-se a casa à medida das necessidades.
Nem tão pouco é capaz de fazer um cálculo aproximado da quantidade nem dos materiais necessários.
Prefere sair da obra várias vezes ao dia para ir comprar um disco para a rebarbadora mesmo que até aos olhos de um leigo se perceba insuficiente face à quantidade de materiais a cortar.
O dono da obra terá sempre que contar com várias demandas do ajudante à tasca para um “diesel prá máquina”. Este, pode até levar o balde que usa para transportar a argamassa para trazer as bebidas.
Se a obra durar mais que uma semana é certo que a segunda-feira é dia de absentismo pelo menos para um dos dois da equipa.
O que está feito está sempre mal feito, porque não foi feito, por ele, expert na matéria.
Uma tarde com cinco horas rende normalmente o mesmo ou menos que uma manhã de quatro, porque o cheirinho do bagaço no café depois do almoço à mistura com o tintol da refeição provoca uma reacção explosiva na cabeça e nos músculos. Normalmente a qualidade de vocabulário começa a descambar para o calão mais grosseiro e o tom de voz mais para o de irritado.
Se os materiais forem pagos pelo biscateiro vêm às pinguinhas sempre ao sabor da sua vontade e da sua lembrança, mesmo que haja lugar para um estaleiro industrial; se for o dono a pagá-los não importa que venham em porções exageradas.
Adora dizer mal, veladamente, dos empreiteiros, fazendo-me lembrar os canitos pincher a ladrar para buldogues surdos.
Abandona a obra pelo menos um dia por semana, sem justificação ou aviso, dispondo do tempo e do espaço como se fosse Deus no Céu e ele na Terra.
O biscateiro ou o seu ajudante lembra-se quase sempre de trazer um aparelho estéreo com música gravada optando nalguns períodos do dia por audição de programas como os discos pedidos da estação radiofónica de Arouca ou similar; em contrapartida óculos/viseira, auscultadores ou protecção para a boca ou nariz, sem esquecer o capacete, são considerados sem qualquer interesse prático. (Com os auscultadores não ouviriam a rádio, com a viseira não apreciariam bem a rapariga que passa na rua, com a máscara caiam para o lado com o seu próprio bafo etílico).
Por norma o "artista" opta pela maneira mais complicada para resolver o problema, perdendo tempo… mas ganhando dinheiro.
Alguma roupa de trabalho vai-se acumulando de dia para dia, atirada em qualquer sítio, chegando a haver meias e sapatos velhos no meio da areia ou no entulho.
Garrafas e latas de bebidas e papéis de embrulho das merendas misturar-se-ão com o entulho, mesmo que haja na obra um recipiente para o lixo. Tudo isto poderá inclusive fazer parte do pavimento a assentar, se for caso disso, sem que ocorra ao profissional do biscate, que isso pode alterar a resistência e a qualidade dos materiais.
O prazo de execução inicialmente previsto será prorrogado até o biscateiro lhe apetecer.
O final da obra nunca contempla a limpeza do local.
Os valores a pagar nunca se parecem nada com os estimados antes de começar a obra e nem que a meio desta já se esteja a prever grandes alterações orçamentais, o biscateiro prefere não avisar o dono da obra, para no fim ainda dizer que ele próprio foi prejudicado porque o dinheiro que leva a mais do que o previsto não chega para o trabalho feito.
Há até quem não passe factura mas tente cobrar o IVA.
E como quem não sabe ou não pode fazer estes trabalhos cala e consente, os biscateiros vão florescendo como cogumelos no mato em dia de chuva e enriquecendo sem pagar impostos. Alguns recebem subsídios escolares para os filhos como se não tivessem qualquer rendimento.
Os mais afoitos tentam ser empresários mas a megalomania afunda-os normalmente por excessos de expectativas, provocando muitas situações complicadas por resolver com os clientes.
E ainda nos queixamos dos terroristas? Estes não se imolam… fazem-nos é explodir a paciência